Canto Lírico

Numa tarde de 1943, o bonde Jardim Botânico corria célere pela rua que lhe dava o nome quando um jovem se levantou, puxou o cordão da campainha e o fez parar, saltando junto com um senhor mais velho. E o bonde partiu em direção ao Jockey Clube.

Estavam diante de um palacete, como os que havia no Rio de Janeiro, então capital do país, com jardins na frente e grandes quintais. Só que este era um dos maiores da cidade, com uma frente de uma centena de metros e circundado por um jardim que era remanescente da Mata Atlântica, subindo da rua até o maciço que sustentava em seu topo o Cristo Redentor.

Subiram até o enorme palacete, entraram num dos seus enormes salões e aguardaram a chegada da dona daquela imensa mansão, uma das maiores do Brasil, que logo chegou, com a imponência, o desembaraço e a altivez que todo aquele cenário exigia.

O senhor cumprimentou-a e introduziu o jovem. Após as gentilezas protocolares, dirigiram-se a outro salão, com enorme piano, onde o senhor sentou-se e o jovem encostou-se, aguardando um sinal da senhora.

Dentro em pouco ouviram-se as primeiras notas de Cavatina de Fígaro de O Barbeiro de Sevilha. Após esta, seguiram-se mais duas ou três árias de ópera para barítono, todas ouvidas com absoluta atenção pela grande senhora. Ela levantou-se - fez-se um silêncio - e então se disse impressionada com as qualidades vocais do rapaz. E dali para frente o tornaria como aluno de canto, coisa que ela só fazia com poucos, nos quais entrevia um futuro no mundo da ópera.

E, assim, durante três anos consecutivos, o jovem Paulo de Paiva Fortes estudou canto, onde hoje é o Parque Lage, com a formidável Gabriella Besanzoni, uma das lendas do mundo da ópera da primeira metade do século XX, então casada com o industrial Henrique Lage, proprietário daquele palácio, por quem ela havia abandonado a carreira internacional.

"Abandonado" em termos, pois depois do casamento, em 1925, Gabriella ainda se apresentava esporadicamente nos teatros municipais do Rio e de São Paulo. Havia estreado em 1918, no Rio, em Sansão e Dalila, teatro carioca no qual cantou 10 papéis em 39 récitas, sempre com o público em delírio com sua voz excepcional de contralto e presença cênica dominadora.

Mas "Dona" Gabriella (como geralmente era tratada) havia feito mais. Conhecendo todos os cantores brasileiros e tendo dado aulas para aqueles que lhe pareceram melhores, em 1937, lançou-se numa grande aventura à qual o teatro lírico brasileiro é devedor até hoje: se fez empresária e fundou a Companhia Lírica Theatro Brasileiro S.A. De 6 de outubro até 14 de dezembro, encenou 11 óperas num total de 40 espetáculos, nos quais participaram 37 cantores brasileiros, a maioria estreantes - muitos deles vieram a ser esteios do Theatro Municipal do Rio de Janeiro dali para frente, sendo Violeta Coelho Netto de Freitas o mais famoso exemplo.

Trecho do Livro Paulo Fortes, O Barítono do Brasil
Autor: Bruno Frulanetto
Editora: FUNARTE Fundação do Theatro Municipal do Rio de Janeiro