ACONTECEU EM COPACABANA

A ideia era contar a história musical do bairro. Homenageando os 100 anos do logradouro mais famoso do Brasil, Paulo Fortes soltou a voz no Rio Jazz Club, passando por vários gêneros, da opereta à Bossa Nova ...

Através de 20 canções (“Solamente Uma Vez”, “Carinhoso”, “Maringá” e, é claro, “Copacabana – Princezinha do Mar”, entre outras), entrecortadas por vários casos narrados pelo barítono - que também sabe ser um ótimo contador de histórias - o show reviveu as aventuras musicais do bairro, enveredando pelos salões mais refinados e passando, sem preconceito, pelos cabarés, bares e pequenas (e famosas) casas noturnas, numa homenagem singela e despretensiosa. 

Quando relembrava as operetas cantadas nos palcos do Copacabana Palace, Paulo contou com a parceria da soprano Ruth Staerk – com quem cantou inúmeras óperas no Teatro Municipal - nos inesquecíveis duetos românticos. O espetáculo ficou em cartaz por cinco semanas, no Hotel Meridien.

 

 

 

 

ELENCO

  • Paulo Fortes; e
  • Ruth Staerk.

FICHA TÉCNICA

  • Direção Geral: Caio de Andrade
  • Roteiro: Paulo Fortes e Caio de Andrade
  • Arranjos e Direção Musical: Sérgio Kuhlmann
  • Iluminação: Paulo César Medeiros
  • Figurinos: Sonaia Hermida
  • Direção de Produção: Caio de Andrade
  • Realização: Rio Jazz Club

LOCAL

  • Rio Jazz Club – Hotel Meridien.

50 Anos de Carreira

Em 1995 o grande barítono brasileiro Paulo Fortes completou 50 anos de carreira. Havia estreado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1945, aos 22 anos de idade, como Germont em “La Traviata”, depois de longo e rigoroso treinamento na classe de Gabriella Besanzoni, o célebre mezzo soprano italiano.

Naquele ano Paulo protagonizou o “Gianni Schicchi” em seis récitas memoráveis do “Trittico” de Puccini no Municipal. Estava escalado para cinco récitas de “La Traviata”, que seria levada logo depois por uma companhia independente, quando comemoraria oficialmente o seu cinquentenário interpretando a mesma ópera da sua estreia.

A “Traviata” foi levada como estava prevista, mas as récitas de Paulo, por motivos que aqui não cabe recordar, foram canceladas.

Sabendo que a comemoração havia sido frustrada, o diretor do Teatro naquela época, Emílio Kalil, chamou Paulo para uma conversa e lhe perguntou:

“-Em que data foi a sua estreia?”

Paulo respondeu: “-Em 5 de outubro de 1945.”

“Ótimo!”, disse Kalil após consultar a agenda do Teatro, “Temos o dia 5 de outubro livre. Vamos fazer a sua festa nesse dia.”

Passaram a combinar o programa. Aliás, combinar é força de expressão porque Kalil deixou o programa inteiramente a critério de Paulo.

Assim, no dia 5 de outubro de 1995, com o Teatro abarrotado de gente, os cantores Céline Imbert e Eduardo Alvares, com o Maestro Alessandro Sangiorgi à frente da orquestra, abriram a noite cantando as árias e o dueto final do “Andrea Chénier”.

Iniciou-se então o segundo ato da “Traviata”. Depois da aria inicial, cantada pelo tenor Rubens Medina, e do breve diálogo que se segue à aria, Paulo entrou em cena.

Palavras não podem descrever (ou pelo menos eu não conseguiria) a reação do público à entrada do seu adorado artista. Um aplauso que parecia interminável, por vários minutos, com gritos entusiasmados de “bravo”.

Restabelecido o silêncio, Paulo fez soar a sua belíssima voz, absolutamente fresca e conservada apesar dos seus 72 anos de idade, com as palavras: “Madamigella Valéry?”, respondidas pela voz aveludada do soprano Ruth Staerke (Violetta).

O ato prosseguiu, sob aplausos delirantes: dueto, encontro com o filho, e o grande momento: a aria “Di Provenza il mare” que atestou a grandeza intacta do homenageado.

Depois do intervalo, foi dado o “Gianni Schicchi” completo com Paulo, Edna D’Oliveira, Vincenzo Cortese e um vasto elenco (do qual eu participava no papel de Gherardo).

Terminada a ópera, comparecemos todos ao proscênio onde Paulo Fortes foi homenageado e condecorado pela direção do Teatro e, em seu belo e emocionado discurso de agradecimento, homenageou Alaide Briani e o Maestro Santiago Guerra, respectivamente sua primeira Violetta e seu primeiro regente, ambos instalados nos dois camarotes de boca de cena.

Assim Paulo Fortes comemorou o seu cinquentenário e recebeu suas merecidas homenagens, deixando em todos os presentes a certeza de terem participado de uma das noites de ópera mais emocionantes da história do Teatro Municipal.

Marcos Menescal