D'AMORE LE EBBREZZE - FOSCA

Alô, Dolly! estreou em março de 1966, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. Bibi encarnou Dolly e contracenou com Paulo Fortes - o maior barítono brasileiro do século 20 ...

E com quem Bibi dizia ter aprendido tudo sobre o canto lírico - Augusto César Vanucci (que pouco antes de morrer dirigiu o Bibi in Concert especial para a Globo, em 91), Lisia Demôro (que vinha de fazer My fair Lady com Bibi), Hilton Prado, Marli Tavares e grande elenco, de onde se destacava o mestre Milton Carneiro, responsável pelas maiores gargalhadas e aplausos em cena aberta de toda a peça. É um verdadeiro tour de force. Em My Fair Lady é seguro dizer que havia pouquíssimo espaço para qualquer um brilhar, a não ser Bibi e Paulo Autran, e, num segundo plano, Jayme Costa e Hélio Paiva. Em Dolly!, Hilton Prado, e sobretudo Lísia Demôro brilham intensamente com suas vozes de tenor e soprano.

Mas merece destaque o comentário do jornalista Paulo Salgado sobre Paulo Fortes (1923/1997), pois nos dá a medida exata do patamar de respeito em que todos tinham esse nosso maravilhoso artista: "Não havia, no nosso mundo teatral, outro artista que pudesse viver com tanta correção Horatio Vandergelder a não ser o barítono Paulo Fortes. Só podemos expressar nossa admiração ao belo trabalho do grande intérprete de Falstaff dizendo: Obrigado, Paulo Fortes, continue a dar ao teatro musicado este seu grande talento histriônico e esta belíssima voz! Paulo Fortes, depois de ter conquistado o público de ópera e de televisão, vai tomar de assalto as platéias dos musicais. É bom ver um artista de tanta classe no tradicional Teatro João Caetano". (Revista Querida, abril de 1966).

Ópera Fosca - Antônio Carlos Gomes

50 Anos de Carreira

Em 1995 o grande barítono brasileiro Paulo Fortes completou 50 anos de carreira. Havia estreado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1945, aos 22 anos de idade, como Germont em “La Traviata”, depois de longo e rigoroso treinamento na classe de Gabriella Besanzoni, o célebre mezzo soprano italiano.

Naquele ano Paulo protagonizou o “Gianni Schicchi” em seis récitas memoráveis do “Trittico” de Puccini no Municipal. Estava escalado para cinco récitas de “La Traviata”, que seria levada logo depois por uma companhia independente, quando comemoraria oficialmente o seu cinquentenário interpretando a mesma ópera da sua estreia.

A “Traviata” foi levada como estava prevista, mas as récitas de Paulo, por motivos que aqui não cabe recordar, foram canceladas.

Sabendo que a comemoração havia sido frustrada, o diretor do Teatro naquela época, Emílio Kalil, chamou Paulo para uma conversa e lhe perguntou:

“-Em que data foi a sua estreia?”

Paulo respondeu: “-Em 5 de outubro de 1945.”

“Ótimo!”, disse Kalil após consultar a agenda do Teatro, “Temos o dia 5 de outubro livre. Vamos fazer a sua festa nesse dia.”

Passaram a combinar o programa. Aliás, combinar é força de expressão porque Kalil deixou o programa inteiramente a critério de Paulo.

Assim, no dia 5 de outubro de 1995, com o Teatro abarrotado de gente, os cantores Céline Imbert e Eduardo Alvares, com o Maestro Alessandro Sangiorgi à frente da orquestra, abriram a noite cantando as árias e o dueto final do “Andrea Chénier”.

Iniciou-se então o segundo ato da “Traviata”. Depois da aria inicial, cantada pelo tenor Rubens Medina, e do breve diálogo que se segue à aria, Paulo entrou em cena.

Palavras não podem descrever (ou pelo menos eu não conseguiria) a reação do público à entrada do seu adorado artista. Um aplauso que parecia interminável, por vários minutos, com gritos entusiasmados de “bravo”.

Restabelecido o silêncio, Paulo fez soar a sua belíssima voz, absolutamente fresca e conservada apesar dos seus 72 anos de idade, com as palavras: “Madamigella Valéry?”, respondidas pela voz aveludada do soprano Ruth Staerke (Violetta).

O ato prosseguiu, sob aplausos delirantes: dueto, encontro com o filho, e o grande momento: a aria “Di Provenza il mare” que atestou a grandeza intacta do homenageado.

Depois do intervalo, foi dado o “Gianni Schicchi” completo com Paulo, Edna D’Oliveira, Vincenzo Cortese e um vasto elenco (do qual eu participava no papel de Gherardo).

Terminada a ópera, comparecemos todos ao proscênio onde Paulo Fortes foi homenageado e condecorado pela direção do Teatro e, em seu belo e emocionado discurso de agradecimento, homenageou Alaide Briani e o Maestro Santiago Guerra, respectivamente sua primeira Violetta e seu primeiro regente, ambos instalados nos dois camarotes de boca de cena.

Assim Paulo Fortes comemorou o seu cinquentenário e recebeu suas merecidas homenagens, deixando em todos os presentes a certeza de terem participado de uma das noites de ópera mais emocionantes da história do Teatro Municipal.

Marcos Menescal