FOSCA

Antonio Carlos Gomes: “o mais negligenciado compositor de óperas da história”. Suas composições eram, realmente, acima da média ...

Carlos Gomes é o maior compositor de óperas das Américas. Foi o único a fazer sucesso e a brilhar intensamente no maior centro operístico do mundo: Milão. Foi julgado pelos mais importantes críticos, compositores e músicos da sua época. Jamais foi considerado um “selvagem” no meio operístico e sim um inovador, cuja obra é impregnada de originalidade e, por mais estranho que possa parecer a alguns, cheia de brasilidade. Ele sempre buscou inspiração no nosso folclore. Foi o pioneiro em nosso país neste sentido ao usar em sua brasileiríssima obra pianística, repleta de modinhas, polcas, valsas e quadrilhas, a famosa congada “cayumba”. Na canção, suas modinhas são inesquecíveis. É claro que tudo isso se refletiria em sua obra no exterior. Os que tentam denegrir sua arte, infelizmente na sua grande maioria, brasileiros, o fazem por puro preconceito e inveja. Nunca se deram ao trabalho de analisar suas obras como fizeram seus colegas contemporâneos. Esquecem da admiração de músicos do porte de um Mascagni, de Gounod, Verdi, Ponchielli e Liszt, entre outros, pelas óperas do mestre brasileiro. Esquecem da força com que ele cantou “Eu fui no tororó beber água, não achei” num dos momentos culminantes de “O Guarani”, o célebre dueto “Sento una forza indomita”, que encerra o 1º ato da ópera e que também aparece com os dois temas entrelaçados quase ao final da esplêndida protofonia. Quando compunha “O Escravo”, Carlos Gomes passeava pelo centro do Rio de Janeiro, anotando os pregões dos vendedores ambulantes, e andava pelas alamedas arborizadas ouvindo o canto dos nossos pássaros, para usar em sua nova ópera. Um dia encontrei-me, nos corredores da nossa Rádio MEC, com Guerra Peixe e perguntei-lhe: “Mestre, qual é o maior compositor brasileiro?” E ele, sem pestanejar, respondeu: “Carlos Gomes”.

Nosso maior regente de óperas, Santiago Guerra, que conduziu mais de oitenta por cento das obras levadas à cena no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, no período áureo daquela casa de espetáculos, e que conhece praticamente todo o repertório operístico, me disse que Carlos Gomes tinha só um grande defeito: “ser brasileiro”. Se ele fosse norte-americano, a conversa seria outra e sua obra seria conhecida mundialmente.
(texto de Lauro Machado Gomes, extraído do encarte)

Ouça! Ouça! Deleite-se!

Antonio Carlos Gomes (1836-1896)
Seleção da ópera Fosca

Fosca

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1 - D'Amore le ebbrezze - Ária - Paulo Fortes
2 - Cara cittá natia - Dueto - Leda Coelho de Freitas e Assis Pacheco
3 - Soli, del mondo immemori - Dueto - Aracy Bellas-Campos e Assis Pacheco
4 - Quale orribile peccato - Ária - Leda Coelho de Freitas
5 - A qual sorte serbata son io - Ária - Aracy Bellas-Campos
6 - Orfana e sola - Dueto - Aracy Bellas-Campos e Leda C. de Freitas
7 - Ah! se tu sei fra gli angeli - Ária - Assis Pacheco

 

50 Anos de Carreira

Em 1995 o grande barítono brasileiro Paulo Fortes completou 50 anos de carreira. Havia estreado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1945, aos 22 anos de idade, como Germont em “La Traviata”, depois de longo e rigoroso treinamento na classe de Gabriella Besanzoni, o célebre mezzo soprano italiano.

Naquele ano Paulo protagonizou o “Gianni Schicchi” em seis récitas memoráveis do “Trittico” de Puccini no Municipal. Estava escalado para cinco récitas de “La Traviata”, que seria levada logo depois por uma companhia independente, quando comemoraria oficialmente o seu cinquentenário interpretando a mesma ópera da sua estreia.

A “Traviata” foi levada como estava prevista, mas as récitas de Paulo, por motivos que aqui não cabe recordar, foram canceladas.

Sabendo que a comemoração havia sido frustrada, o diretor do Teatro naquela época, Emílio Kalil, chamou Paulo para uma conversa e lhe perguntou:

“-Em que data foi a sua estreia?”

Paulo respondeu: “-Em 5 de outubro de 1945.”

“Ótimo!”, disse Kalil após consultar a agenda do Teatro, “Temos o dia 5 de outubro livre. Vamos fazer a sua festa nesse dia.”

Passaram a combinar o programa. Aliás, combinar é força de expressão porque Kalil deixou o programa inteiramente a critério de Paulo.

Assim, no dia 5 de outubro de 1995, com o Teatro abarrotado de gente, os cantores Céline Imbert e Eduardo Alvares, com o Maestro Alessandro Sangiorgi à frente da orquestra, abriram a noite cantando as árias e o dueto final do “Andrea Chénier”.

Iniciou-se então o segundo ato da “Traviata”. Depois da aria inicial, cantada pelo tenor Rubens Medina, e do breve diálogo que se segue à aria, Paulo entrou em cena.

Palavras não podem descrever (ou pelo menos eu não conseguiria) a reação do público à entrada do seu adorado artista. Um aplauso que parecia interminável, por vários minutos, com gritos entusiasmados de “bravo”.

Restabelecido o silêncio, Paulo fez soar a sua belíssima voz, absolutamente fresca e conservada apesar dos seus 72 anos de idade, com as palavras: “Madamigella Valéry?”, respondidas pela voz aveludada do soprano Ruth Staerke (Violetta).

O ato prosseguiu, sob aplausos delirantes: dueto, encontro com o filho, e o grande momento: a aria “Di Provenza il mare” que atestou a grandeza intacta do homenageado.

Depois do intervalo, foi dado o “Gianni Schicchi” completo com Paulo, Edna D’Oliveira, Vincenzo Cortese e um vasto elenco (do qual eu participava no papel de Gherardo).

Terminada a ópera, comparecemos todos ao proscênio onde Paulo Fortes foi homenageado e condecorado pela direção do Teatro e, em seu belo e emocionado discurso de agradecimento, homenageou Alaide Briani e o Maestro Santiago Guerra, respectivamente sua primeira Violetta e seu primeiro regente, ambos instalados nos dois camarotes de boca de cena.

Assim Paulo Fortes comemorou o seu cinquentenário e recebeu suas merecidas homenagens, deixando em todos os presentes a certeza de terem participado de uma das noites de ópera mais emocionantes da história do Teatro Municipal.

Marcos Menescal