SALVATOR ROSA

Depois de conhecer somente sucessos estrondosos com A Noite do Castelo, Joanna de Flandres e Il Guarany, Antônio Carlos Gomes ficou apreensivo ...

Com a recepção mediana do público e dura da crítica em Fosca. Já casado e com uma vida de ostentação (morava em um palacete num subúrbio de elite de Milão) que lhe exigia elevados custos para sua manutenção, Gomes se viu necessitado de compor rapidamente uma nova peça para obter renda e manter seu alto padrão de vida. Mais que isso, para “recuperar” sua imagem, que ele via como que manchada ante o público pela recepção não tão boa de Fosca.

Assim, apenas um ano após sua estreia da quarta ópera, Carlos Gomes fazia subir ao palco sua quinta obra do gênero: Salvator Rosa, que traz a história do personagem-título (que existiu realmente: Rosa era pintor, músico, ator e poeta e criou um importante círculo artístico em sua cidade), envolvido numa revolta popular em Nápoles contra os dominadores espanhóis e, cruel coincidência, apaixonado por Isabella, filha do governante hispânico, Duque d’Arcos.

Carlos Gomes desta vez abriu mão de inovações e cedeu ao gosto do público e dos padrões italianos. Abandonou o leitmotiv que havia aparecido em Fosca e buscou, com o prestigioso libretista Ghislanzoni, daquela mesma obra, apresentar uma história com a qual os italianos se identificassem mais. O personagem principal é um pintor e revolucionário muito querido no imaginário da Itália. Somam-se a isso os trechos dos insurgentes, cheios de patriotismo, as cenas de festas, bailes e bons duetos, além da tradicional e recorrente história de amor arrebatador que, levado às últimas consequências, culmina em morte… E depois da densa, escura e dramática Fosca, Gomes fez de Salvator Rosa, mesmo se tratando de tragédia, uma ópera muito mais leve, talvez a mais leve por ele escrita até então, com um fraseado mais simples e claro e com a presença de personagens cômicos, como Gennariello, divertido ajudante adolescente de Salvator interpretado por uma soprano travestida de homem. Sua ária, “Mia Piccirella”, se tornaria muito popular na Itália daquele tempo.

Com tantos elementos favoráveis, Salvator Rosa agradou imensamente ao público e teve uma estreia verdadeiramente estrondosa, a ponto de Carlos Gomes ter que retornar ao palco nada menos de 36 vezes para receber os incessáveis aplausos da plateia!!!

Vejamos um pouco sobre a música em si de Salvator Rosa:

Do ponto de vista da orquestração, Salvator Rosa é tão bem cuidada quanto Fosca, embora harmonicamente possua texturas mais simples. O emprego freqüente dos tutti instrumentais, o cromatismo de certas passagens impetuosas, a veemência com que Carlos Gomes se expressa em determinados momentos já anunciam, à distância, a ênfase característica dos veristas. Uma página sinfônica especialmente bem escrita é a abertura, construída sobre os temas das árias e duetos principais. No artigo sobre a ópera para o já citado Carlos Gomes: uma Obra em Foco, Leo Laner faz cuidadosa análise dessa abertura, demonstrando – inclusive através de um gráfico que ajuda a visualizar seus três episódios e a ordem em que neles os temas se entrelaçam – o equilíbrio e a harmonia de proporções obtida pelo compositor.

Portanto, embora visando a cativar o favor do público com o retorno a moldes mais acessíveis, o compositor mostra também ter atingido, nessa ópera, um estágio de grande maturidade na utilização de seus recursos expressivos. É pena, portanto, que tantos trechos mais vulgares acabem empanando o brilho de outras páginas mais bem compostas (Lauro Machado Coelho)
Na gravação que disponibilizamos, a primeira integral desta ópera, estão nomes importantíssimos da cena lírica nacional, como Benito Maresca (falecido no ano passado), Ruth Staerke e Paulo Fortes. Só figurões de nossa música!

Em tempo, Salvator Rosa é a ópera mais conhecida de Carlos Gomes na Itália. Então, ouça-a: se o exigente público de lá obrigou Carlos Gomes a voltar tantas vezes ao palco, sob calorosas ovações, a peça só pode ser IM-PER-Dí-VEL!!!

Antonio Carlos Gomes (Campinas, 1836-Belém, 1896)
Salvator Rosa (1874)
Libreto: Antonio Ghislanzoni
Baseado na novela Masaniello, de Charles Jean-Baptiste Jacquot

Para maiores informações sobre a ópera de Antônio Carlos Gomes, clique aqui.

Elenco

Salvator Rosa Benito Maresca, tenor
Isabella Nina Carini, soprano
Masaniello Paulo Fortes, barítono
Gennariello Ruth Staerke, soprano
Duca d’Arcos Edilson Costa, baixo
Conde de Badajoz Aguinaldo Albert, tenor
Fernandez Ayrton Nobre, tenor
Corcelli Wilson Carrara, baixo
Bianca Leyla Taier, soprano
Soror Ines Leyla Taier, soprano
Fra Lorenzo Boris Farina, baixo

Orquestra e Coro do Theatro Municipal de São Paulo
Simon Blech, regente
Theatro Municipal de São Paulo, 1977

ATO I

 
1 - Sinfonia
2 - Mia piccirella
3 - Vero figliuol di Napoli (Salvatore, Gennariello, Masaniello)
4 - All'armi! iddio la vuol (duetto - Salvatore e Gennariello)
5 - Forma sublime eterea (romanza - Salvatore)
6 - Salvator! celatevi fuggite! (Gennariello, Salvatore, Il Conte)
7 - Viva l'arte e l'alegria! (coro di giovani pittori)
8 - Delle truppe rispondi - (dialogo - Salvatore e Il Duca)
9 - Padre_ a te il grido innalzasi (Isabella_ Salvatore e Il Duca)
10 - Quel dolce sguardo... (Masaniello, Gennariello, Salvatore)

ATO II

 
11 - È desso! è proprio desso! (scena - Isabella e Il Duca)
12 - Di sposo di padre (aria - Il Duca d'Arcos)
13 - Di Masaniello il messaggier! (scena Il Duca, Salvatore)
14 - Sulle rive di chiaia... (duetto - Isabella e Salvatore)
15 - Per questa augusta imagin del Dio (Isabella, Salvatore, Il Duca)
16 - A festa! a festa! (coro)
17 - Poichè vi piace udir (Gennariello, coro, Corcelli)
18 - Largo a Masaniello! (Gennariello, Masaniello, Corcelli, coro)
19 - Povero nacqui_ e ai perfidi (aria - Masaniello)
20 - Viva! su! accorriamo! (Gennariello, Masaniello, Corcelli e coro)
21 - Dovè l'eroe del popolo - (finale secondo)

ATO III

 
22 - Le tazze colmiamo! (coro)
23 - Strane parole mormorar... (Fernandez e Il Conte)
24 - Di quelle sale il lezzo uccide (Masaniello e coro)
25 - Là su quel fragil legno (Salvatore e Masaniello)
26 - Si cerchi Masaniello (scena - Salvatore_ Il Duca e coro)
27 - D'aura di luce ho d'uopo (scena e coro di monache)
28 - Alla infelice suora sol rea d'amor (romanza - Isabella)
29 - Sola il mio bianco crine (scena e duetto - Isabella_ Il Duca)

ATO IV

 
30 - Serenata (Gennariello)
31 - Purchè ci sia del vino (coro di briganti - Conte e Corcelli)
32 - Al ballo alle mense la notte (coro e scena - Salvatore e Conte)
33 - Salvator! libero sei! (scena e duetto - Isabella e Salvatore)
34 - Ah! ti trovo Gennariello! (Isabella_ Gennariello e Salvatore)  
35 - 35 Padre! in quella chiesa (Isabella_Gennariello_Salvatore_Il Duca)  

 

50 Anos de Carreira

Em 1995 o grande barítono brasileiro Paulo Fortes completou 50 anos de carreira. Havia estreado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1945, aos 22 anos de idade, como Germont em “La Traviata”, depois de longo e rigoroso treinamento na classe de Gabriella Besanzoni, o célebre mezzo soprano italiano.

Naquele ano Paulo protagonizou o “Gianni Schicchi” em seis récitas memoráveis do “Trittico” de Puccini no Municipal. Estava escalado para cinco récitas de “La Traviata”, que seria levada logo depois por uma companhia independente, quando comemoraria oficialmente o seu cinquentenário interpretando a mesma ópera da sua estreia.

A “Traviata” foi levada como estava prevista, mas as récitas de Paulo, por motivos que aqui não cabe recordar, foram canceladas.

Sabendo que a comemoração havia sido frustrada, o diretor do Teatro naquela época, Emílio Kalil, chamou Paulo para uma conversa e lhe perguntou:

“-Em que data foi a sua estreia?”

Paulo respondeu: “-Em 5 de outubro de 1945.”

“Ótimo!”, disse Kalil após consultar a agenda do Teatro, “Temos o dia 5 de outubro livre. Vamos fazer a sua festa nesse dia.”

Passaram a combinar o programa. Aliás, combinar é força de expressão porque Kalil deixou o programa inteiramente a critério de Paulo.

Assim, no dia 5 de outubro de 1995, com o Teatro abarrotado de gente, os cantores Céline Imbert e Eduardo Alvares, com o Maestro Alessandro Sangiorgi à frente da orquestra, abriram a noite cantando as árias e o dueto final do “Andrea Chénier”.

Iniciou-se então o segundo ato da “Traviata”. Depois da aria inicial, cantada pelo tenor Rubens Medina, e do breve diálogo que se segue à aria, Paulo entrou em cena.

Palavras não podem descrever (ou pelo menos eu não conseguiria) a reação do público à entrada do seu adorado artista. Um aplauso que parecia interminável, por vários minutos, com gritos entusiasmados de “bravo”.

Restabelecido o silêncio, Paulo fez soar a sua belíssima voz, absolutamente fresca e conservada apesar dos seus 72 anos de idade, com as palavras: “Madamigella Valéry?”, respondidas pela voz aveludada do soprano Ruth Staerke (Violetta).

O ato prosseguiu, sob aplausos delirantes: dueto, encontro com o filho, e o grande momento: a aria “Di Provenza il mare” que atestou a grandeza intacta do homenageado.

Depois do intervalo, foi dado o “Gianni Schicchi” completo com Paulo, Edna D’Oliveira, Vincenzo Cortese e um vasto elenco (do qual eu participava no papel de Gherardo).

Terminada a ópera, comparecemos todos ao proscênio onde Paulo Fortes foi homenageado e condecorado pela direção do Teatro e, em seu belo e emocionado discurso de agradecimento, homenageou Alaide Briani e o Maestro Santiago Guerra, respectivamente sua primeira Violetta e seu primeiro regente, ambos instalados nos dois camarotes de boca de cena.

Assim Paulo Fortes comemorou o seu cinquentenário e recebeu suas merecidas homenagens, deixando em todos os presentes a certeza de terem participado de uma das noites de ópera mais emocionantes da história do Teatro Municipal.

Marcos Menescal