MINHA CASA

Em futebol, seria polivalente: joga em várias posições. Em religião seria ecumênico: une e reúne diversas correntes de expressão ...

O espetáculo TERNAS E ETERNAS SERESTAS nasceu de um desejo: ouvir a potente voz de um dos maiores artistas líricos do país cantando canções populares, serenatas que o próprio barítono já havia gravado, mas nunca cantado em público. Paulo Fortes tinha 86 óperas em seu repertório (sem contar as operetas e comédias musicadas), cantou ao lado de lendas como Maria Callas, Renata Tebaldi, Beniamino Gigli, foi contratado do Teatro Comunale di Firenze, fez programas de rádio, filmes e vários programas de televisão, mas faltava encontrar o seu público para relembrar os tempos quando, ao lado do pai, apaixonado por serestas, cantava sucessos como “Deusa da Minha Rua”, “Guacyra”, “Arranha-Céu”, “Eu sonhei que tu estavas tão linda”, “Lua Branca”, além de boleros como “La Barca”. Completava o show uma seleção de músicas italianas, como “Mattinata” e “Torna a Surriento”. Acompanhado por quatro músicos, Paulo Fortes contava, ainda, com a graça e o talento da dançarina flamenca Vera Alejandra, com quem dividia o palco quando soltava sua voz em sucessos do cancioneiro andaluz. O espetáculo estreou no Rio de Janeiro, no Teatro Rival e depois fez temporadas em Brasília e Belo Horizonte, além de cidades do interior dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Caio de Andrade - Direção Geral

 

 

 

Compositor: Joubert de Carvalho

Foi num dia de tristeza
Que a cidade abandonei
Sem saber o que fazer
Na esperança de encontrar
Pela vida algum prazer
Alegria em algum lugar

lá no alto da Tijuca
Tem um sítio bem florido
Onde agora estou morando
Com os pássaros em festa
De galho em galho cantando

Lá dentro da floresta
Minha casa é tão bonita
Que dá gosto a gente ver
Tem varanda tem Jardim
Ainda agora estou esperando
Uma rede para mim
A embalar de vez em quando

Minha casa é uma riqueza
Pelas jóias que ela tem
Minha casa que tem tudo
Tanta coisa de valor
Minha casa não tem nada
vivo só, não tenho amor...

50 Anos de Carreira

Em 1995 o grande barítono brasileiro Paulo Fortes completou 50 anos de carreira. Havia estreado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1945, aos 22 anos de idade, como Germont em “La Traviata”, depois de longo e rigoroso treinamento na classe de Gabriella Besanzoni, o célebre mezzo soprano italiano.

Naquele ano Paulo protagonizou o “Gianni Schicchi” em seis récitas memoráveis do “Trittico” de Puccini no Municipal. Estava escalado para cinco récitas de “La Traviata”, que seria levada logo depois por uma companhia independente, quando comemoraria oficialmente o seu cinquentenário interpretando a mesma ópera da sua estreia.

A “Traviata” foi levada como estava prevista, mas as récitas de Paulo, por motivos que aqui não cabe recordar, foram canceladas.

Sabendo que a comemoração havia sido frustrada, o diretor do Teatro naquela época, Emílio Kalil, chamou Paulo para uma conversa e lhe perguntou:

“-Em que data foi a sua estreia?”

Paulo respondeu: “-Em 5 de outubro de 1945.”

“Ótimo!”, disse Kalil após consultar a agenda do Teatro, “Temos o dia 5 de outubro livre. Vamos fazer a sua festa nesse dia.”

Passaram a combinar o programa. Aliás, combinar é força de expressão porque Kalil deixou o programa inteiramente a critério de Paulo.

Assim, no dia 5 de outubro de 1995, com o Teatro abarrotado de gente, os cantores Céline Imbert e Eduardo Alvares, com o Maestro Alessandro Sangiorgi à frente da orquestra, abriram a noite cantando as árias e o dueto final do “Andrea Chénier”.

Iniciou-se então o segundo ato da “Traviata”. Depois da aria inicial, cantada pelo tenor Rubens Medina, e do breve diálogo que se segue à aria, Paulo entrou em cena.

Palavras não podem descrever (ou pelo menos eu não conseguiria) a reação do público à entrada do seu adorado artista. Um aplauso que parecia interminável, por vários minutos, com gritos entusiasmados de “bravo”.

Restabelecido o silêncio, Paulo fez soar a sua belíssima voz, absolutamente fresca e conservada apesar dos seus 72 anos de idade, com as palavras: “Madamigella Valéry?”, respondidas pela voz aveludada do soprano Ruth Staerke (Violetta).

O ato prosseguiu, sob aplausos delirantes: dueto, encontro com o filho, e o grande momento: a aria “Di Provenza il mare” que atestou a grandeza intacta do homenageado.

Depois do intervalo, foi dado o “Gianni Schicchi” completo com Paulo, Edna D’Oliveira, Vincenzo Cortese e um vasto elenco (do qual eu participava no papel de Gherardo).

Terminada a ópera, comparecemos todos ao proscênio onde Paulo Fortes foi homenageado e condecorado pela direção do Teatro e, em seu belo e emocionado discurso de agradecimento, homenageou Alaide Briani e o Maestro Santiago Guerra, respectivamente sua primeira Violetta e seu primeiro regente, ambos instalados nos dois camarotes de boca de cena.

Assim Paulo Fortes comemorou o seu cinquentenário e recebeu suas merecidas homenagens, deixando em todos os presentes a certeza de terem participado de uma das noites de ópera mais emocionantes da história do Teatro Municipal.

Marcos Menescal