Críticas

Luiz Paulo Horta, cronista, jornalista, crítico de artes
"Paulo Fortes: Com o subtítulo "Um brasileiro na ópera", Rogério Barbosa Lima escreveu e está publicando uma biografia do saudoso Paulo Fortes, nome que era sinônimo de ópera no Brasil. Com sua musicalidade e seu belo aparelho vocal, Fortes marcou as temporadas brasileiras a partir dos anos 40. Partiu da ópera tradicional e chegou à música contemporânea, sempre com o mesmo desembaraço. E sendo uma estrela da ópera, era ao mesmo tempo a mais cativante das personalidades. É bom reencontrá-lo, cheio de vida e de histórias, nesse livro que merece ser lido."
Millôr Fernandes, escritor, sobre o espetáculo Ternas, Eternas Serestas.
Paulo Fortes, barítono, é, por definição, um erúdito (assim paroxítona). Erudito (assim proparoxítona). Erudito no caso é aquele xiita da música antigamente chamada clássica, incapaz de cantar "Mamãe eu quero" mesmo no banheiro vizinho (ou quem sabe, do mesmo). Erúdito é o que não está nem aí , brinca nas sete. Paulo a vida inteira cantou o que lhe veio à garganta. Muito antes de Plácido, Carreiras e Pavarotti abalarem as paredes de Caracalla com Marias Bonitas e Soles Mios, eu já ouvia Paulo Fortes misturando Traviatas com Chãos de Estrelas e Toscas com Luares de Prata. Um barítono seresteiro.

E, apenas para que o espectador que lê isto não pense que estou improvisando um elogio, como é comum nas apresentações, lembro que o título deste show, Ternas Eternas Serestas, foi dado por mim a um disco de Paulo, há muito, muito tempo. SHHH, agora escutem!
Jorge Coli, escritor, professor, crítico de arte.
Se abrirmos o dicionário de ópera de Charles Osborne no verbete Paulo Fortes, encontramos: barítono brasileiro. Um dos maiores e mais versáteis cantores líricos do Brasil. Não há dúvida: Paulo Fortes é artista de primeira linha. Sua voz foi educada por Gabriela Besanzoni, grande mestra que o deixou com infalível técnica. A este saber acrescenta a beleza do timbre, a musicalidade instintiva, a generosidade natural de seus meios, os grandes dotes de ator. Tudo isto junto faz com que ele seja capaz de nuanças mais sutis, modulando admiravelmente dos fortes aos pianos e vice-versa, vocalizando com precisão, colorindo cada nota e imprimindo ao que canta dramática ou cômica interpretação.

Sua voz é exemplo perfeito do chamado barítono di grazia, isto é, o barítono que possui grande facilidade nos agudos, que é capaz de agilidade vocal, cujo o timbre se caracteriza por luminosidade e leveza. Realmente, é impressionante o modo como Paulo Fortes ataca, sem esforço, as notas altas, como seu fraseado possui flexibilidade perfeitamente dominada. Assim suas interpretações, tanto no Brasil quanto no estrangeiro, são ao mesmo tempo exemplares e exaltantes.

Assinale-se o amplo repertório que domina, numa gama prodigiosa, que vai aos extremos estilísticos, de Mozart a Wagner, de Carlos Gomes, Verdi e Puccini a Peter Maxwell Davies - a quem Paulo Fortes deu memorável versão para Oito Canções Para um Rei Louco, no Municipal de São Paulo, revelando entre nós a obra deste grande compositor contemporâneo.

Além dos momentos célebres do repertório, como Barbeiro de Sevilha ou Rigolleto, Paulo Fortes, desde o início de sua carreira, (quando fazia, por exemplo, no Teatro Carlo Felice de Genova, a estréia italiana de Djamileh, esquecida ópera de Bizet) possui um grande amôr por obras mais secretas, através dos caminhos que evitam os "Cavalos de Batalha", fazendo emergir preciosidades. (1992)..
Carlos Heitor Cony, escritor e cronista da Revista Manchete.
Em futebol, seria polivalente: joga em várias posições. Em religião seria ecumênico: une e reúne diversas correntes de expressão. Mas em termos humanos ele é apenas imenso (em nome, talento e figura) Paulo Gomes de Paiva Barata Ribeiro Fortes, copidescado para Paulo Fortes, carioca da Rua do Riachuelo (ex Mata Cavalos ), safra de 1923, aquariano, Americano (houve época em que o clube de Campos Sales tinha cinco parentes dele no primeiro time), cantor lírico, formado em Direito, passagem compulsória pelo CPOR de São Cristóvão, um carioca típico no bem e no mal - mal aqui entendido pela capacidade Tamoia de ter aquele jogo de cintura (nunca de espinha) que deixa na mão os idiotas do caráter e da verdade. Paulo está de longa duração na praça - duração e clandestina que ele manteve com a seresta ao mesmo tempo em que, desde o ocaso Reis e Silva e Silvio Vieira, tornou-se o maior barítono do Brasil em cancha, presença e voz.

Foi assim que conheci, há anos, quando me botaram para escrever programas na antiga Rádio Jornal do Brasil, então PRF-4. Minha tarefa era escrever os programas do maior barítono do Brasil: aquele vozeirão imenso, acompanhado pela bravíssima orquestra do Maestro Carlos Viana de Almeida, cantava boleros, canções napolitanas, trechos líricos. Uma gentil mistura de Frenesi, Perfídia, Granada, com Cavatina do Barbeiro, O toreador da Carmem, a Canção do Aventureiro do Guarani. Minha obrigação era unir em má literatura aquela substanciosa salada canora e deixar Paulo Fortes inundar os estúdios e ouvintes com sua voz poderosa e maleável.

Paulo também se transformou em produtor, fez programas muito bem sacados (Cantam as Ruas, por exemplo), mostrando que não havia leito imune ao caudal que trazia dentro de imenso peito. Vieram as viagens ao exterior, sucesso em Florênça, em Nápoles em Buenos Aires, alguns filmes nacionais, papéis em tevê, parece que preferia contracenar com Jô Soares ou ser marido enganado em filmes de Jece Valadão a ser obrigado a cantar pela milionésima vez a temida, a fatal, a inexorável cavatina do Barbeiro de Sevilha, afinal ele era Paulo Fortes porque, no mundo inteiro raríssimos barítonos conseguiam o famoso lá natural que o Rossini - um gozador de gênio - colocou logo à entrada de sua ópera para mostrar que o Fígaro devia ser mesmo um Largo Al Factotum no drama de Beuamarchais e na escala musical.

Nesse meio tempo, e ao longo de suas andanças em gêneros, topou com o desafio de Sérgio Cabral e WEA: gravar um elepê de serestas. Juntar a fome com a vontade de comer. Bem, o disco de Paulo Fortes ("Ternas Eternas Serestas") é um fato artístico e cultural que faz bem saudar, faz bem ao Brasil. É uma conversa eternamente antiga, por isso sempre nova: delírios nervosos, vespa da intriga, lua airosa, dilúvio de falenas, o som do pinho, ais convulsos, noite constelada, trevas do porvir a dedilhar modinhas - o Brasil Brasileiro, Carioca, que a voz de Paulo Fortes torna mais vivo, mais quente, mais nosso..
A.H.- O Globo - Rio de Janeiro.
"A personalidade, a experiência de palco, a arte de cantar, de dizer, de gesticular com espontaneidade e em perfeita sincronização com o tempo musical, todas as qualidades, enfim, e de grande ator e barítono que reúne Paulo Fortes, tiveram excelente aplicação na ópera do grande, do maior Verdi".
A. Ramirez de Mañe - El Plata - Montevidéu - Uruguai.
"Músico, cantor e ator de hierarquia superior, o barítono brasileiro resolveu com luxuoso domínio vocal todo o pesado curso de um personagem esgotante.".
Rodolfo Ruiz - Buenos Aires Musical - Argentina.
"Um protagonista de primeira linha e à prova de dificuldades que desenhou, unissonamente, um verdadeiro torneio de aptidões vocais e cênicas. Voz fácil, ágil, de rendimento preciso e magnífica qualidade sonora.".
J.V.E. - Los Principios - Cordoba - Argentina.
"Com veia cômica de grande estilo, Fortes dominou o espetáculo. Sua voz é aveludada e de nobre qualidade; sua dicção claríssima e castiço o seu fraseado. Um grande e completo artista.".
Marcos André - O Globo -14-4-1965.
Lembro-me de ter assistido a um "Barbeiro de Sevilha" nacional em que a voz desse "bravo" Paulo Fortes. Cheguei quase a desejar que, numa proeza fregoliana, êle cantasse também as outras partes de Rosina, Almaviva, D. Basílio e todos os outros personagens, para poder ouvir a música de Rossini....
Brasil Musical - Estréia com Besanzoni.
Gabriella Besanzoni Lage foi a São Paulo revêr seu público e receber dele as mesmas consagrações de sempre a que faz jús a sua voz excepcional. Levou em sua companhia, para apresentação oficial o jovem barítono Paulo Fortes, que correspondeu ao êxito dele esperado. Com a aventura de ter encontrado uma professora do quilate de Gabriella Besanzoni Lage, o futuroso artista recebeu em São Paulo, Teatro Municipal, o seu diploma de aprovado.
Diário de Notícias - 7 de Outubro de 1945.
La Traviata - (estréia na ópera)
O grande êxito da noite, porém, coube a Paulo Fortes, jovem barítono brasileiro, de apenas 22 anos. Desde que pisou em cena, encarnando o velho “Germont”, causou a melhor impressão pelo seu porte, pelas suas maneiras bem longe de revelar o estreante que ele era. E foi essa impressão que avolumou durante o seu trabalho,até atingir o “clímax” no famoso romance “De Provença”.

Sua voz linda, maleável, pura, voz capaz de torná-lo célebre, não tem, ainda nos graves, o suficiente corpo, o que se explica pela sua pouca idade. No mais, porém, revelou as maiores possibilidades cantoras e os mais acentuados pendores cênicos.

O público entusiasmou-se ante aquele artista jovem e espontâneo. Aclamou-o em delírio, na crença de que será ele, um dia, uma grande figura da arte lírica mundial.

É o caso de dizer : amém. Deus permita que não lhe falhe esta esperança. Paulo Fortes tem futuro a desbravar, tem um destino a cumprir. Que não lhe faltem os meios para atingi-lo.
Correio da Manhã - 27 de Abril de 1949.
O Barbeiro de Sevilha (estréia)
“O barítono Paulo Fortes plasmou-nos um “Fígaro” a caráter, animado de vigor jocoso. Seu “Largo ao factotum” surpreendeu, despertando aplausos calorosos e unânimes.

... Ponto alto de “Barbeiro” foi ele próprio, ou seja, o barítono Paulo Fortes. Auspiciosa carreira se abre para esse jovem cantor.
O Estado de São Paulo – 15 de novembro,1957.
Rigoletto
Não foi surpresa para ninguém a excelente caracterização histriônica que Paulo Fortes deu à figura do bobo da côrte. O barítono patrício é um artista com completo domínio do palco, daí seu notável trabalho lírico dramático, que culminou na grande cena do 3º ato. O público que lotava o nosso teatro não regateou aplausos.
B.Eme - Diário do Povo - 01-12-1957.
Rigoletto
A maior glória da noite pertenceu a Paulo Fortes, no papel de Rigoletto, possuidor de uma voz bem sonora, profundo no seu desempenho e admirável na sua ótima escola. Além do mais, esteve à vontade no seu papel com expressivo jogo cênico. No final do terceiro ato, "Si vendetta ,tremenda vendetta” arrebatou a platéia! Um grande barítono! Admirável ator!
Ary Vasconcelos.
Falstaff
Foi um magnífico espetáculo e que consagrou definitivamente o barítono Paulo Fortes. Em cada nova interpretação de Paulo Fortes podem observar-se acentuados progressos. Vivendo o papel-título, impressionou-nos pela sua soberba atuação cênica e sua correta atuação vocal.
D.J. - A Manhã - Rio, Domingo,15-4-1951.
O barítono Paulo Fortes mostrou-se à vontade no seu “rôle”. Sua voz generosa e brilhante foi aplaudida nas árias "L’onore! Ladri! E “Quand’ero paggio”. Esteve seguro na situação do cômico e infeliz “Falstaff”, vivendo as desditas que a sorte lhe reservara.
Ayres de Andrade - O Jornal - 3 de maio de 1951.
O Guarany
O barítono Paulo Fortes mais uma vez demonstrou estar à altura do apreço em que é tido pelo público, dominando a cena com aquele seu estilo desenvolto de ator nato e cantando com a elegante plasticidade própria do artista de sensibilidade e possuidor de recursos variados de expressão.
Adelaide R. de Mañe - El Plata – 26 de agosto de 1964.
Le Coq d’Or
Pablo Fortes, heroe de la jornada, que realizó una caracterizacion escénica de fina veta bufa,conquistado al público com su firme misicalidad, su decir sobrio, y su bella voz siempre justa, expressiva y ductil, y se adueno del gran aplauso de la noche e nla danza de El Rey Dodon, en una increíble demostracion de agilidad y de torpe gracia.
Agostino Capocaccia – Corriere Mercantile – 31 Marzo 1954.
La Grançeola
...mentre il vecchio Shiavone há aavuto in Paolo Fortes um interprete geniale e sicuro.
Rossini Tavares de Lima - A Gazeta – 28 de outubro de 1963.
La Bohéme
A récita de “La Bohéme” nos deu a oportunidade de apreciarmos, pela quarta vez nesta temporada, o nosso extraordinário Paulo Fortes, no clímax de sua carreira de artista lírico. Interpretou de maneira privilegiada, com voz quente e uma finalidade incomum de expressão, a figura de Marcello.
Giornale delli Italiani - São Paulo, Giovedi, 7 novembre, 1963.
“Barbiere”
Paulo Fortes há brillato vocalmente dal bissato “Largo al Factotum della cittá” al duetto col bravo Lazzarini, a quello com Rosina, fino all’ultimo atto, non ricordo fra i tanti Figari applauditi in Europa, nessuno che abbia saputo “dettagliare” scenicamente come il nostro cantante attore (splendido Falstaff), ogni “intenzione” fisiomonica in perfetta sincronizzazione colle parole cantate o....recitate!
Alberto Ricardi - Folha de S. Paulo, Quarta-feira, 13/11/1963.
“Rigoletto”
O consagrado Paulo Fortes encarnou o truculento e desgraçado bufão. Fê-lo substituindo o barítono Constanzo Mascitti, anteriormente anunciado pela empresa. O “Rigoletto” desse nosso estimado barítono é brilhante e substancioso. È movimentado, vivaz, e tão melodramático quanto se pode exigir. Vimos outros mais sarcásticos, mais ríspidos ou mais sinistros. O de Paulo Fortes tem sobretudo plenitude humana contagiante. Com a sua grande ciência vocal, Fortes não abusou dos seus dotes no dueto do 3º ato. Transmitiu-lhe paixão sincera, de modo a demarcar uma atuação notável. Assim, “Pari siamo”, “Veglia ó donna” e “Vendetta tremenda vendetta” (bisada) valeram-lhe frenéticas palmas.
João Câncio Pôvoa - O Estado de S. Paulo – 10/11/1963.
O grande triunfador da noite foi, como não podia deixar de ter sido, o inteligente barítono Paulo Fortes, cuja caracterização dramático-vocal da personagem de Hugo-Verdi foi admirável, nada inferior aos grandes intérpretes estrangeiros. Nessa apreciação, é bom esclarecer, não vai o mais leve resquício de patriotismo ou do suspeito falso “nacionalismo” que hoje pulula nos quatro pontos cardeais do nosso atormentado País, nacionalismo que em arte, então, é abjeto. Raramente se vê e se ouve a grande cena do 3º ato tão bem cantada e representada, nela atingindo Paulo Fortes o patético sem, contudo, em momento algum, descambar para o exagero ou o efeito fácil. Não lhe foram regateados aplausos, mui merecidos, em todo o decorrer do espetáculo.
Musica por J.N. - La Manãna - Montevideo, Domingo 18/10/1964.
Falstaff
Paulo Fortes (Sir John Falstaff”) realizó un protagonista de excepcion, el barítono brasileñoes un cantante completo y además un gran actor, como ya se habia podido constatar en “El Gallo de oro”. En la oportunidad cantó en la mejor línea verdiana com un concepto depurado escénica y volcamente, y un registro amplio que abarcó desde acertados graves hasta el sutil menejo del “falsetto”. Una auténtica creacion.
Eurico Nogueira França - Correio da Manhã, 5/5/1965.
...a do vigor incomum que o barítono Paulo Fortes, no taddeo, imprimiu à personagem. À parte rossiniana, de basso buffo, como já ocorrera em O Barbeiro, são perfeitamente adequados os recursos vocais e cênicos do festejado cantor.

Recursos vocais, no que se refere à matéria da voz, e prosódicos, pela velocidade da pronúncia em trechos típicos de ópera – bufa. E quanto à personagem cênica, foi recortada com vitalidade admirável.

Vitalidade, vivacidade, são têrmos que convêm a essa ópera-a música mais física que Stendhal dizia haver conhecido. E se essa exuberância típica, sensação de vida fremente, animará outros conjuntos, na própria Itália, com maior, natural, espontâneo relêvo, não será fácil admiti-lo, dentro de certo nível, com relação ao barítono Paul Fortes.

Carlos Dantas, jornalista, crítico musical, em resenha sobre Paulo Fortes, um brasileiro na ópera, intitulada Evocação de um Ícone

"Não é um livro de ontem. Quatro meses faltam para completar um ano de seu lançamento (Editora Antigo Leblon). Ora, o dadaísta Hans Arp afirmava que "só os imbecis e os professores espanshois se preocupam com datas" (Dada au grand air. Tyrol, 1921).

Sem tamanha veemência, o que verdadeiramente conta é o aqui e o hoje a respeito de uma publicação repassada de vigor e entusiasmo por uma figura de certo a mais icônica do canto lírico nacional: Paulo Fortes.

Ainda que declarando ser-lhe escassa a tecnologia fundamental da música e mesmo sublinhando sua nenhuma assiduidade a espetáculos voco-dramáticos, Rogério Barbosa Lima ao assinar o atraente trabalho biográfico que tem por título Paulo Fortes, um brasileiro na ópera instalou-se, em definitivo, como um eficaz colaborador na expansão de nossa bibliografia musical.

A propósito, Andrade Muricy muitas vezes lamentava a pauperidade das edições de música no Brasil. Apontava algumas monografias de real mérito, tal ou qual compêndio, umas poucas coletâneas de artigos, tão somente. Nenhuma obra de estruturação tangível, duradoura.

Houve mudanças nesse deserto "grafosférico" (como diria Antônio Houais). Apareceram, por exemplo, Francisco Manuel da Silva e seu tempo, dois volumes densos sobre o autor do texto venerável do Hino Nacional, admiravelmente trabalhados por Ayres de Andrade; também preciosas pesquisas acerca do Padre Mestre do Brasil Colônia, José Maurício Nunes Garcia, desenvolvidas pela maestrina Cleofe Person de Mattos e o opulento (671 páginas) volume versando sobre Camargo Guarnieri, organizado por Flávio Silva - para citarmos algumas cúspides visíveis de qualquer horizonte.

Não ficará, insistimos, sem lugar de relevo na memorialística da arte lírica de nosso País o livro de Rogério Barbosa Lima, o conjunto de relatos vivazes e, mais que tudo, a originalidade de sua ordenação o que nos traz flagrante, viva, a personalidade midiática do barítono Paulo Fortes. A começar que o próprio cantor se faz de autobiografado. Desde os apontamentos cartoriais de sua vinda ao mundo, mais a ancestralidade repercutida na alentada onomástica (Paulo Gomes de Paiva Barata Ribeiro Fortes) - o que logo implicou uma copidescagem ajustável às dimensões de um cartaz de teatro - depois as primeiras travessuras, o despertar da vocação para o canto, lições iniciais, o encontro decisivo com a lendária Gabriella Besanzoni Lage, estímulos do maestro Santiago Guerra e - enfim - e estréia na Traviata. Foi o marco inicial (aos 22 anos de idade) de uma carreira artística que iria, sem interrupção, projetar-se num recorde de 87 personagens diferentes em 330 récitas no Theatro Municipal.

Rogério Barbosa Lima aí confere ao livro a dinâmica de jornal e promove um ping-pong com Paulo Fortes. Ao longo da entrevista é pormenorizado o roteiro ascensional operístico em seqüência à Traviata, as digressões no Brasil e no exterior, flashes da vida em família e do encontro com celebridades mundiais, sem faltar uma radiografia da vivência administrativo-musical do Municipal. É o momento em que Paulo Fortes aparece particularmente éblouissant comme esprit. Sua verve é um regalo para o leitor freqüentador do nosso principal teatro.

Longe estão estas nossas anotações de um projeto de resenha de Paulo Fortes, um brasileiro na ópera. O livro é um copiosíssimo acervo de informações às quais não faltam a atuação do saudoso barítono em rádio, cinema, televisão, discos, teatro dramático, shows, serestas, revistas musicais. Verdadeiramente uma existência artística de poliedricidade exitosa, única neste País. Sem falar na figura humana admirável, perfectus amicus. A mais notar o que a obra exibe em termos de ilustrações, fartíssimas e de valor documental. Depoimentos de personalidades do mais vivo prestígio em nosso mundo artístico-cultural, reflexos da crítica especializada, listagem de láureas e homenagens, repertório e apresentações, bibliografia e índice onomástico. O volume totaliza 291 páginas.

Num comovido e breve capítulo intitulado Cai o pano, Rogério Barbosa Lima registra a coda, o encerramento da carreira de Paulo Fortes - "honra dos cantores líricos do Brasil". Por sinal que neste mês de janeiro, dia 9, transcorreram oito anos desse encerramento. Rogério Barbosa Lima acentua: "a morte foi lustração, sagração, perdão e apoteose"."

Henrique Cazes, produtor, para o CD "Carlos Gomes", Seleção das óperas Fosca e O Escravo, sobre Paulo Fortes:

Paulo Fortes é sem dúvida o mais realizado dos artistas líricos brasileiros. Até hoje cantou 87 óperas diferentes, sendo inúmeras vezes premiado com a Medalha de Ouro da Associação Brasileira de Críticos Teatrais como o melhor cantor lírico. Canta pelos principais teatros do país, tendo brilhado também na Argentina, Colômbia, Venezuela e em vários teatros da Itália. Participou também como ator em diversos filmes e em diversos programas de televisão. Fez vários recitais de câmara. Gravou vários discos: O Guarani completo, trechos de Fosca, Modinhas, Canções e Serestas. Sempre se destacou também como ator, dominando os palcos com facilidade nos mais difíceis e variados personagens, como: "O Barbeiro de Sevilha" e "A Italiana na Argélia", de Rossini; "Falstaff", Aída, O Trovador, O Rigoletto e La Traviata, de Verdi; La Bohème, Madame Butterfly, Turandot e Gianni Schicchi, de Puccini; O Elixir do Amor e Don Pasquale, de Donizetti; Andrea Chenier, de Giordano; Carmen e Os Pescadores de Pérolas, de Bizet; Cosi Fan Tutte, de Mozart; O Chalaça, O Contratador de Diamantes e O Sargento de Milícias, de Francisco Mignone; Izath e A Menina das Nuvens, de Villa-Lobos; Pedro Malazarte e Um Homem Só, de Camargo Guarnieri; O Guarani, Fosca, Salvador Rosa e o Poema Sinfônico Coral "Colombo", de Carlos Gomes. Também não podem ser esquecidas as suas interpretações em "Os Palhaçõs" de Leon Cavallo e "Le Coq d'Or", de Rimsky-Korsakov. Formado em Direito, Paulo Fortes estudou canto com Gabriela Besanzoni, Murilo de Carvalho e Pina Monaco.

Artur da Távola, O Globo, Segundo Caderno, 18-10-1984