Televisão

Sempre que ouço as pessoas dizerem que sou um barítono famoso, sinto vontade de explicar a cada uma delas que minha popularidade fora do circuito operístico se deve, em grande parte, à atuação no rádio e na televisão. Para se ter uma ideia dessa participação, em 1960 fiz - produzindo, escrevendo, dirigindo ou atuando - 104 programas de televisão.

Se no rádio debutei ainda criança, na televisão fui pioneiro: comecei junto com a TV Tupi, em 1951, ainda nos tempos heróicos da Avenida Venezuela, com um programa intitulado Fantasia Musical das Óticas Brasil, ao vivo, com músicas que variavam de árias de óperas aos boleros em voga.

Quando eu, Damiano, Diva e Maria Sá Earp criamos em 1961 a cooperativa que organizou a temporada lírica daquele ano, não foi difícil cooptar os colegas para a empreitada, já que parte considerável deles era sempre convocada para meus programas na TV Rio, Audições PhilipsTeatro de Ópera Philips, este último apresentado também em São Paulo.

Produzindo, escrevendo, dirigindo, atuando, apresentando e cantando, trabalhei em todas as emissoras do Rio de Janeiro (Excelsior, Educativa, Globo, além das já citadas), São Paulo (incluindo Record e Bandeirantes) e na Itacolomi, de Belo Horizonte, em programas musicais que iam desde Meu Carnaval do Passado, de cunho popular, até Concertos Internacionais, dedicado ao que se convencionou chamar de "música erudita".

Participei ainda, como colaborador e ator, de inúmeros programas cômicos produzidos por Max Nunes, Haroldo Barbosa e Maurício Sherman e outros trabalhos com Avancini e Augusto Cesar Vanucci.

E se é para fazer concessões à estatística e à contabilidade, nunca é demais acrescentar que adaptei para a televisão e dirigi 14 óperas e 6 operetas, uma iniciativa coroada de êxitos, a julgar pelas palavras da contista Làzinha Luís Carlos, em artigo publicado na revista TV Programas, de outubro de 1968:

"E tivemos puccinescas alegrias e emoções, vendo e principalmente ouvindo La Bohème no "Carrousel", em nova fase, louvavelmente modificado. A coisa se deve a Paulo Fortes, que foi buscar aquela gente, movimentou, botou tudo para cantar, e acabaram-se aquelas cortinas esvoaçantes e aquela gente tão triste deslizando pelas salas em desalento. Em ondas, entrou a sentimental música italizana, e vieram os artistas, vivendo a eterna história, já tão sabida, mas sempre comovente, de Mimi tuberculosa, as cenas de boêmia, os duetos, tudo aquilo antigo e sempre bom quando a música compensa. Eu, que não gosto de ópera na TV, palavra que assim gosto! E passei uns bons momentos deleitada com che gelida manina e outros gostosos pedaços de um passado que a gente tem pena de que está mesmo passado."

A propósito de ópera na televisão, ressaltando seu caráter de utilidade pública, lembro-me de que em 1976 - um protesto contra o marasmo que grassava no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e o descaso das autoridades responsáveis (!?) pela atividade lírica (até meados de junho não tinham ainda definido a temporada) -, convidado a me apresentar na TV Globo para cantar uma ária da Carmen, não perdi tempo: entrei em cena, sacudi a capa do toureador e cantei Lúcia Esparadrapo, tema da novelesca operária protagonizada por Betty Faria em Pecado Capital. Mantive a música e troquei a letra. Quando me interromperam, assustados, perguntando o porquê daquilo, denunciei a situação miserável por que passava o teatro lírico no Rio de Janeiro.

Trecho do Livro: Paulo Fortes, Um Brasileiro na Ópera
Autor: Rogério Barbosa Lima
Editora: Antigo Leblon Ltda.